24/01/2008Idéia é avançar nos estudos para produzir formas de vida pré-programadas.Equipe liderada por Craig Venter acha que poderá resolver o aquecimento global.
Lembra-se dos replicantes, aqueles andróides biológicos, mas artificiais, do clássico filme de ficção científica "Blade Runner"? A ciência moderna ainda está muito longe disso, mas já começa a trilhar seus primeiros passos na construção de formas de vida artificiais. E o último avanço veio de uma equipe liderada por ninguém menos que Craig Venter -- o homem que foi responsável direto pelo sucesso no seqüenciamento do genoma humano. Sua equipe acaba de anunciar que conseguiu sintetizar, montar e replicar com sucesso o primeiro genoma artificial de bactéria. Nada tão gigantesco quanto os 3 bilhões de letras químicas existentes no genoma humano, mas ainda assim impressionantes 583 mil letras -- é o maior genoma do tipo sintetizado artificialmente. O artigo, que tem como autor principal Hamilton Smith, velho colega de Venter e um de seus principais colaboradores no The J. Craig Venter Institute, foi publicado eletronicamente pelo periódico científico "Science". O genoma sintetizado foi uma versão do Mycoplasma genitalium, um "peso-pena" entre os genomas bacterianos. Para recriá-lo a partir do nada, os cientistas primeiro criaram 101 seqüências mais curtas, e depois realizaram etapas sucessivas de montagem desse quebra-cabeça, até obterem quatro grandes pedaços. Os cientistas então instalaram esses "quartos de genoma" numa bactéria conhecida dos biólogos (e das vítimas de infecção intestinal), a Escherichia coli, que fez o trabalho de replicá-los aos montes. Por fim, a montagem final dos quatro pedaços num só foi produzida em outro organismo, o Saccharomyces cerevisiae -- uma espécie de levedura usada na fermentação de bebidas alcoólicas. Embora o processo seja vitimados por erros ocasionais, a equipe conseguiu produzir várias réplicas exatamente iguais do genoma, tais como originalmente planejadas, com seus 582.970 pares de letras. O resultado demonstrou a possibilidade de realizar mais uma etapa necessária ao objetivo final dos cientistas liderados por Venter: criar formas de vida artificiais.
Recentemente, o grupo também teve outro sucesso nessa direção, elaborando o primeiro "sistema operacional genético" para esses futuros organismos: um genoma mínimo, contendo apenas os genes absolutamente necessários à sobrevivência. A idéia é seguir desenvolvendo essas pesquisas para produzir organismos que possam ajudar a humanidade a solucionar alguns dos seus problemas mais agudos, como o excesso de dióxido de carbono na atmosfera (que produz o aquecimento global) e a produção de energia abundante, barata e limpa (concebendo, por exemplo, organismos capazes de fazer fotossíntese de forma muito mais eficiente do que os existentes, produzindo quantidades abundantes de energia química a partir da luz do Sol). Se isso vai dar certo, ninguém ainda sabe. Mas quem pode duvidar de Craig Venter, depois que ele conseguiu seqüenciar o genoma humano com uma técnica em que ninguém mais acreditava, numa fração do tempo (e por uma fração da verba) usado pelo consórcio público internacional?
G1, em São Paulo
G1, em São Paulo

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