segunda-feira, junho 02, 2008

Milhões passam fome

30/05 /08
Um dos fatos mais graves no atual panorama mundial é a afirmação da Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura. A FAO, em seu mais recente relatório, afirma que “cerca de 820 milhões de indivíduos de nosso mundo sofrem de fome e doenças de desnutrição“. E, em Paris, a Organização de Cooperação Econômica e Desenvolvimento, OCDE, distribuiu relatório prevendo preços de alimentos em alta pelos próximos anos.
O documento da OCDE fala de aumento da população mundial, mudanças de hábitos alimentares de centenas de milhões que passaram a consumir mais laticínios e carnes, demanda grande por bicombustíveis, variáveis como os aumentos do preço do petróleo e seus incontáveis derivados, a baixa do dólar e outras, como fatores.
As estimativas foram feitas antes dos mais recentes aumentos do petróleo. Os números citados , de preços e fome, já foram superados. São de fato piores. Ameaçam não só os países mais carentes como setores de mais baixa receita de países em melhor situação. Ameaçam a estabilidade política e econômica das nações. O desequilíbrio se acentua.
Num artigo publicado num jornal de Dubai, pequeno e rico emirado árabe com inteligente e criativa liderança, escreve Anwer Sher, ”que os países do Golfo são terra da abastança devido sua riqueza financeira”, que não especifica vem do petróleo. E podem enfrentar os altos preços da alimentação. Mas não podem ignorar a ajuda aos mais pobres, nem Europa nem Estados Unidos podem.
No mundo globalizado “seria ignorância pensar que são imunes à crise e imaginar que pode ser restringida aos menos abastados. Ninguém escapa. ”É uma crise que pode arruinar a humanidade como a conhecemos”.
O curioso é que os relatórios das organizações internacionais não ousam chegar a essência da questão do aumento e escassez de alimentos, do petróleo.
Não se discute que esteja havendo um aumento da demanda sem maior oferta. Está acontecendo com o petróleo e alimentos. Mas em ambos os segmentos existe também especuladores. Investir em alimentos e petróleo vem representando inéditos ganhos para empresas e indivíduos. Lucro é lucro. Dane-se os custos em sofrimento impostos não controláveis nas atuais regras da vida econômica. O mundo atravessa o que parece ser a maior crise de falta de solidariedade e irresponsabilidade nas relações internacionais. As instituições que regem a chamada Comunidade das Nações não têm a influência necessária para convencer os países de que o futuro talvez esteja sendo decidido nestas horas vergonhosas.
A escassez de água acontece por falta de investimentos em tecnologias já existentes de produzir água potável. Existem as tecnologias para transformar desertos em terras agriculturáveis. É uma questão de decisão política a de financiar a sua adoção. A escassez de alimentos poderia ser rapidamente superada se houvesse cooperação internacional. Na verdade existem soluções para quase todos os problemas de carência que, porém, contrariam as chamadas leis do mercado. Boa desculpa.
A globalização é atribuída ao fenômeno econômico do aumento da interdependência maior precipitado pelo desenvolvimento dos meios de comunicação e transportes. Mas não aumentou a cooperação entre nações. As lideranças ainda preferem fazer do futuro do mundo uma loteria. Cada um por si.
Não é uma questão de mudar a lei da oferta e procura por decreto como já se tentou e deu em tragédias. É a de decidir o que e como fazer para eliminar a fome que tende a se expandir pelo aumento do custo do básico. Fazer cooperativamente o que reduziria atuais lucros. Não é provável. Mas,como estão, as coisas não vão acabar bem.
Nahum Sirotsky, correspondente iG em Israel

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